27 de ago de 2009

A cadeira vazia

“Oi filho”. Era uma resposta padrão, que falada em algum momento pode não ter significado algum. Para mim já era muito, depois que eu soube de uma história. História quem tem como protagonistas duas pessoas bem próximas: minha mãe e meu avô.

Meu avô era um cara durão, daquela velha geração que controlava tudo a ferro e fogo, muito possivelmente influenciado pelo ambiente a sua volta. Criado numa região de fazendas no sul de Minas, ele foi mais um que veio para São Paulo para tentar sorte. Casou, estabeleceu família na região do ABC e procurou trabalhar em alguma empresa da região. Conseguiu uma oportunidade em uma empresa e assim passou. Teve quatro filhas, sendo a mais velha a minha mãe, e um filho. Todos saudáveis e que até hoje estão por ai, no mundo, tocando suas vidas. Mas passaram por muito na infância. Meu avô sempre foi centralizador, daqueles bravos, que dificilmente abria o coração. Toda vez que minha avó não conseguia controlar a família, entrava em cena ele. Sempre tentando ensinar algo, nem que fosse da maneira mais dolorosa. Provavelmente todas as minhas tias e o meu tio sabem do que eu estou falando.

E a vida que seguiu. As filhas casaram (o filho mais novo continuo solteiro), formaram novas famílias, sendo que na primeira geração destas novas raízes desta arvore genealógica surgimos eu e meus irmãos. E crescemos muito próximo do meu avô. Ele ajudou meu pai a comprar o terreno do lado da casa dele e a construir aquela que seria residência de meus pais até hoje e sendo a minha durante 23 anos antes de morar sozinho por conta do trabalho.

Todos os dias, eu visitava meu avô e minha avó. Enquanto com minha avó eu sempre fui brincalhão e até certo ponto atrevido, com meu avô não era assim. Devido aos avisos varias vezes feitos pela minha mãe, eu evitava fazer certas coisas na frente dele. O que não me impediu de ver ele bravo algumas vezes, seja comigo ou com outras pessoas da família. Estas pequenas experiências faziam me sentir receoso ou com medo de como ele poderia reagir, mesmo em diversas oportunidades presenciar ele dando um sorriso e mostrar que estava feliz com a nossa presença. Até porque além de ser bravo, ele não compartilhava o que sentia. Era difícil colher alguma coisa dele que não fosse apenas uma reação ao que acontecia a sua volta.

Durante muito tempo, meu avô trabalhou no período noturno como porteiro em alguns prédios de São Paulo e do ABC. Isso ajudou a ver ele cada vez menos. E quando via por tradição, ele estava sentado em uma cadeira de balanço postada milimetricamente em frente à TV da sua sala de estar. Fumante, sempre via  acompanhado com um maço de Palace qualquer que fosse o programa, mesmo sabendo que os preferidos dele eram os jornais.

Durante parte da minha infância foi assim, até que um dia, ele sofrerá um derrame cerebral forte, que lhe causou como seqüela a perda parcial dos movimentos do lado esquerdo do corpo. O medo tomou conta da família, mas logo ele se recuperou. Depois passou por um período de fisioterapia para sua melhor recuperação. Um dia desses eu acompanhei minha mãe em uma das sessões de fisioterapia que ele fazia, e levaram para uma sala para conversar com outras pessoas que também tinham passado pelo mesmo problema. Naquele dia percebi o que de fato tinha ocorrido.

Como as memórias de infância vão ficando cada vez mais sem uma ordem cronológica, eu não me lembro se fosse antes ou depois desta sessão que minha mãe me disse: “Filho, trate seu avo bem. Não irrite ele, não faça com que ele fique nervoso, para que ele possa melhorar bem”. Isso foi uma ordem daquelas que eu não podia não cumprir. Mesmo ainda criança, mal saído para adolescência, eu sentia a obrigação de tratá-lo ele bem.

Então, logo após isso, toda vez que eu ia para casa do meu avô e encontrava ele na cadeira de balanço dele, tentando assistir TV ou o que seja, eu o cumprimentava com um “oi vô!”. Não era benção nem nada. Era apenas um oi comum, um pouco fora até dos padrões que ele tanto pregava. E ele, simpaticamente, falava para mim “oi, filho! Tudo bem?”. E disso eu tenho que me orgulhar, pois foi uma atitude acertada. Outro dia, após repetir diversas vezes este ritual, minha mãe comentou comigo que o “Vô” estava feliz comigo. Eu perguntei o porquê dele estar feliz. E ela disse que apenas eu chegava para ele e queria saber se ele estava feliz ou não, e de certa maneira, ele gostou desta atitude. Acho que naquele momento eu percebi que o homem fechado e bravo tinha um coração, e que muita gente só não sabia agradar ele para fazer transparecer aquele homem com sentimentos como qualquer um de nós.

E a vida seguiu, comigo sempre falando desde pequeno se ele estava bem ou não. Houve algumas mudanças neste período. Meu avô parou com o cigarro após o susto do derrame e até voltou a trabalhar, para depois se aposentar de vez com mais de 60 anos de idade. Eu, cresci, entrei na faculdade, me formei e até me mudei para longe do núcleo da Família no ABC, sendo o único membro pelo lado do meu avô a fazer isso. Mas é claro que sempre que eu voltava para a casa da minha mãe, eu passava na casa do meu avô só para fazer a tradicional pergunta.

Porém, no último ano, ele teve outros problemas de saúde que o fizeram o durão do meu avô perder um pouco da força. Varias internações, problemas que se alongavam e que nunca pareciam resolvidos. Alguns meses atrás o quadro clinico dele começou a piorar, até que ele teve um sério problema onde ele necessitou ficar de cama, rotina a qual aconteceu nos últimos dois meses. Quando eu aparecia na casa dele, eu já não encontrava ela na sua cadeira de balanço. Ele ficava na cama dele, com dores e reclamando muito da situação que ele estava. Mesmo assim, eu fazia questão de fazer todo ritual, mesmo que a resposta na hora do “tudo bem?” fosse um “mais ou menos”.

E aquela cadeira vazia representava toda vez que eu entrava na casa do meu avô como o tempo passava e como às vezes uma pequena atitude fazia a nossa vida um pouco mais feliz. Hoje, dia 27/08, meu avô veio a falecer. O sofrimento que ele tinha não irá mais ocorrer. E agora ele esta bem, como eu sempre quis quando perguntava para ele sempre que o via naquela cadeira.

Obrigado vô, que o senhor esteja bem agora.

Um comentário:

Elise disse...

Thiago, que homenagem linda vc fez ao seu avô. Fiquei com um nó na garganta...